Bets: O lucro não pode estar acima da vida

O Brasil enfrenta um problema social que não pode ser ignorado. A expansão das apostas esportivas e dos jogos de azar pela internet tem provocado endividamento, dependência e sofrimento em famílias brasileiras. Enquanto as empresas movimentam grandes cifras e clubes de futebol recebendo patrocínios milionários, os trabalhadores comprometem seu trabalho na esperança de ganhos que, muitas vezes, nunca chegam.

A discussão ganhou novos contornos com a edição da Medida Provisória nº 1.394/2026 , que atribuiu a exclusão da exploração, da oferta, da intermediação e da publicidade das chamadas apostas. A medida, ainda em análise pelo Congresso Nacional e questionada no STF, colocou no centro do debate a responsabilidade do Estado na proteção da saúde pública, dos trabalhadores e das famílias brasileiras.

Os números ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Levantamento divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com base em dados do INSS, aponta que o número de pessoas que receberam benefício por incapacidade temporária relacionado ao jogo patológico passou de 67, em 2023, para 361, em 2025. Um crescimento de aproximadamente 439% em apenas dois anos. Embora o estudo considere diferentes modalidades de jogos, os dados revelam consequências preocupantes para a saúde dos trabalhadores.

Por trás dessas estatísticas estão pessoas que precisam garantir o sustento de suas famílias. Normalmente são que deveriam garantir alimentação, moradia, educação e transporte, mas acabam comprometidos pelas apostas. Na tentativa de recuperar o dinheiro perdido, muitos recorreram a empréstimos, acumularam dívidas e aprofundaram dificuldades financeiras. O prejuízo excede a conta bancária, afetando relacionamentos, a saúde mental e a estabilidade familiar.

A facilidade de acesso às plataformas digitais agrava esse cenário. Em poucos segundos, pelo telefone celular, é possível comprometer recursos conquistados com dias ou semanas de trabalho. A promessa de ganhos rápidos, reforçada pela publicidade, contribui para minimizar a percepção dos riscos. A dependência em jogos não pode ser tratada apenas como uma questão de escolha individual. É também um problema de saúde pública que exige prevenção, fiscalização e tratamento adequado.

O futebol brasileiro também precisa assumir sua responsabilidade. Clubes que representam milhões de torcedores, incluindo crianças e adolescentes, associaram suas marcas a empresas de apostas por meio de contratos milionários. Instituições que deveriam promover o esporte, a educação e o bem-estar coletivo não podem ignorar os impactos sociais dessa atividade em nome de interesses comerciais.

É legítimo que os clubes busquem receitas para manter suas atividades. Entretanto, dificuldades financeiras, dívidas acumuladas e problemas de gestão não podem causar dependência de patrocínios provenientes de apostas. O futebol tem uma responsabilidade social que ultrapassa os resultados dentro de campo. Quanto vale a tranquilidade de uma família? Quanto vale o futuro de um jovem?

No Congresso Nacional e no STF, o debate envolve argumentos sobre liberdade econômica, segurança jurídica e arrecadação tributária. São questões relevantes, mas que precisam ser examinadas à luz da proteção da saúde, dos consumidores e da dignidade humana. Os ganhos das empresas são facilmente contabilizados. Muito mais difíceis de mensurar são as dívidas das famílias, o sofrimento emocional e os impactos da dependência na vida dos trabalhadores.

A decisão das apostas deve ser acompanhada de políticas públicas capazes de enfrentar os danos provocados pelas apostas, com medidas de combate às plataformas clandestinas, educação financeira, fiscalização e assistência às pessoas afetadas pela dependência. A proteção da população exige uma atuação firme e permanente do poder público, que coloque a saúde e a dignidade humana acima dos interesses econômicos.

Para os trabalhadores brasileiros, essa discussão é ainda mais urgente. O salário, conquistado com esforço diário, deve garantir condições dignas de vida, segurança financeira e o sustento das famílias, e não alimentar um mercado que pode detalhar o individualismo e a vulnerabilidade social. Proteger a renda e a saúde de quem trabalha é também defensor do valor do trabalho e da dignidade das famílias brasileiras.

O Brasil precisa decidir continuar promovendo os interesses econômicos acima da proteção das pessoas. Nenhum contrato milionário, nenhuma arrecadação tributária e nenhum interesse comercial podem valer mais do que a dignidade humana. O dinheiro perdido pode ser recuperado. Uma família desestruturada pode levar anos para reconstruir seus vínculos. Mas uma vida perdida jamais poderá ser recuperada.

Aposto que nunca mais. A vida vale mais do que o lucro.

Lourival Figueiredo Melo
Secretário-geral da CNTC (Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio) e diretor-presidente da Feaac (Federação dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio de São Paulo).