É uma conquista histórica para os comerciários e para toda a classe trabalhadora brasileira. Depois de muita mobilização, o Senado Federal aprovou, em dois turnos, por 75 votos favoráveis e apenas um contrário, o fim da escala 6×1 e a redução gradual da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. A proposta assegura ainda dois dias de descanso remunerado por semana, estabelecendo a escala 5×2.
A Federação dos Empregados no Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul, FECOSUL, acompanhou a votação em Brasília e participou ativamente da mobilização pela aprovação da proposta, ao lado de sindicatos, centrais e entidades representativas dos trabalhadores.
Para o presidente da FECOSUL, Guiomar Vidor, a decisão representa uma das maiores conquistas trabalhistas das últimas décadas: “é uma conquista histórica, especialmente para os comerciários, que sabem muito bem o que significa trabalhar seis dias para descansar apenas um. Estamos conquistando mais do que uma redução de jornada. Estamos conquistando mais tempo para a família, para cuidar da saúde, para descansar e para viver”, afirma Vidor.
UMA MUDANÇA NA VIDA DE MILHÕES DE COMERCIÁRIOS
Poucas categorias conhecem tão bem o peso da escala 6×1 quanto os trabalhadores e trabalhadoras do comércio. São milhões de pessoas trabalhando em supermercados, lojas, shopping centers e outros estabelecimentos comerciais, convivendo com jornadas extensas, trabalho aos sábados, domingos e feriados e, muitas vezes, apenas um dia de descanso por semana.
“Por isso, para a categoria comerciária, o fim da escala 6×1 significa muito mais do que uma alteração na organização da jornada. Significa ganhar tempo de vida. Tempo para estar com os filhos e com a família. Para estudar. Para cuidar da saúde. Para descansar. Para conviver. Para fazer planos e ter uma vida que não seja organizada exclusivamente em função do trabalho”, acrescenta. “Quem trabalha no comércio conhece essa realidade. Muitas vezes, quando o restante da sociedade está descansando, o comerciário está trabalhando. Dois dias de descanso representam uma mudança enorme na qualidade de vida desses trabalhadores e de suas famílias”, destaca Vidor.
O QUE MUDA PARA OS TRABALHADORES?
Com a aprovação, a jornada máxima será reduzida gradualmente das atuais 44 para 40 horas semanais, sem redução dos salários. A transição começa dois meses após a promulgação, quando o limite passa para 42 horas semanais, com adoção da escala 5×2 e dois dias de descanso remunerado. Após mais 12 meses, a jornada máxima chegará às 40 horas semanais.
A mudança exigirá uma nova organização das escalas de trabalho e terá impacto especialmente importante no comércio e nos serviços, setores que concentram grande número de trabalhadores submetidos atualmente à escala 6×1.
Para a FECOSUL, um princípio deve ser preservado durante todo esse processo: reduzir a jornada sem reduzir salários e garantir efetivamente os dois dias de descanso.
ESSA VITÓRIA NÃO CAIU DO CÉU
A aprovação também demonstra a força da mobilização sindical e popular. A FECOSUL e seus sindicatos filiados participaram de atividades, debates, mobilizações e campanhas pelo fim da escala 6×1 em diferentes regiões do Rio Grande do Sul. A Federação também esteve presente em Brasília durante momentos decisivos da tramitação.
“Essa vitória não caiu do céu e não foi presente de ninguém. Foi conquistada porque os trabalhadores se mobilizaram, os sindicatos foram para as ruas, pressionaram o Congresso e transformaram o fim da escala 6×1 em uma reivindicação de todo o país. Mais uma vez fica demonstrado que trabalhador organizado conquista direitos”, afirma Vidor.
Para a Federação, esse é um dos grandes ensinamentos da conquista: quando uma reivindicação dos trabalhadores ganha as ruas, mobiliza a sociedade e se transforma em pressão política, é possível produzir mudanças concretas.
CONQUISTAMOS. AGORA PRECISAMOS DEFENDER
Ao mesmo tempo em que os trabalhadores comemoram uma das maiores conquistas das últimas décadas, já precisam começar a defendê-la. O debate ganha ainda mais importância diante das eleições presidenciais de 2026.
O líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, declarou que o partido pretende avançar, em 2027, caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente, com uma proposta alternativa para as relações de trabalho, baseada na remuneração por hora trabalhada e em maior peso dos acordos individuais. Para a FECOSUL, trata-se de um caminho oposto ao avanço conquistado agora.
A preocupação é que um modelo baseado no pagamento por hora e na prevalência dos contratos individuais possa aumentar a instabilidade da renda, enfraquecer a negociação coletiva e abrir espaço para flexibilização de direitos.
“Nós acabamos de conquistar o direito de trabalhar menos, sem ganhar menos, e ter dois dias de descanso. Não podemos permitir que amanhã tentem substituir essa conquista por um modelo em que o trabalhador recebe apenas pelas horas que o patrão quiser contratar. Isso não é avanço. É risco de retrocesso”, alerta Vidor.
Por isso, segundo o presidente da FECOSUL, a mobilização que garantiu a aprovação precisará continuar. “Hoje é dia de comemorar. É uma vitória enorme e é dos trabalhadores. Mas também precisamos ter consciência de que todo direito conquistado precisa ser defendido. A mesma união que nos trouxe até aqui será necessária para garantir que ninguém retire aquilo que acabamos de conquistar”, afirma.
MAIS TEMPO PARA VIVER
Para a FECOSUL, o fim da escala 6×1 também representa uma mudança importante na forma como a sociedade brasileira encara a relação entre trabalho e qualidade de vida.
O desenvolvimento econômico, o crescimento da produtividade e os avanços tecnológicos precisam resultar também em melhores condições para quem trabalha. Depois de décadas convivendo com uma jornada constitucional de até 44 horas semanais, o Brasil avança na direção de uma reivindicação histórica do movimento sindical.
“Essa é a essência dessa conquista. Nós trabalhamos para viver. Queremos emprego, salário digno e direitos, mas também queremos tempo para nossos filhos, nossas famílias e para nós mesmos. Essa vitória é sobre dignidade e sobre o direito de viver melhor”, conclui Guiomar Vidor.