O mercado de trabalho brasileiro vive um momento que merece ser reconhecido. O desemprego permanece em níveis historicamente baixos, a renda do trabalho avançou e o país mantém mais de 100 milhões de pessoas ocupadas.
Os dados do IBGE ajudam a dimensionar esse cenário. No trimestre encerrado em maio, a taxa de desemprego ficou em 5,6%, abaixo dos 6,2% registrados no mesmo período do ano passado. O rendimento médio real do trabalho também apresentou crescimento.
Mas a mídia nacional precisa ser observada com cuidado. Esse indicador reúne trabalhadores de diferentes setores, ocupações e faixas de renda e não significa que esse seja o salário recebido pela maioria dos brasileiros.
No comércio, realidade que acompanha de perto há décadas, muitos pisos salariais negociados pelas categorias permanecem entre R$ 1.900 e R$ 2.000. Em algumas negociações, ainda recebemos propostas próximas de R$ 1.800. São valores muito mais próximos da realidade de milhões de trabalhadores do setor.
Por isso, os avanços do mercado de trabalho precisam ser reconhecidos, mas não podem esconder uma pergunta fundamental: a qualidade do trabalho avançou na mesma proporção?
Para milhões de brasileiros, ter uma ocupação não significa necessariamente segurança econômica. É possível trabalhar todos os dias, receber salário e ainda viver permanentemente preocupado com alimentação, moradia, transporte, medicamentos e dívidas. Basta uma despesa inesperada para desorganizar as contas de uma família inteira.
É por isso que precisamos falar de salário digno.
Salário digno não é derivado de riqueza ou privilégio. É um salário que permite ao trabalhador sustentar sua família, cuidar da saúde, descansar, ter algum lazer, enfrentar um imprevisto e construir uma perspectiva de futuro.
Em outras palavras: trabalhar precisa permitir viver, e não apenas sobreviver até o próximo pagamento.
Essa ideia não é estranha ao ordenamento brasileiro. A própria Constituição, ao tratar do salário mínimo, estabelece que ele deve ser capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família, incluindo moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.
A distância entre essa previsão e a vida real ajuda a explicar por que o debate sobre trabalho precisa ir além da geração de vagas.
Há ainda outra questão que não pode ser separada dessa discussão: a saúde mental.
Dados da Previdência Social mostram que mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos em 2025, aumento de 15,66% em relação ao ano anterior.
Seria simplista atribuir esse crescimento exclusivamente ao trabalho. O adoecimento mental tem causas diversas. Mas seria igualmente equivocado ignorar que insegurança financeira, medo do desemprego, jornadas desgastantes, pressão profissional e ausência de tempo para a vida pessoal podem pesar sobre a saúde das pessoas.
A conta que não fecha no fim do mês acompanha o trabalhador até o emprego.
É por isso que o Brasil precisa olhar de maneira mais ampla para a discussão que hoje fazemos sobre jornada de trabalho.
O debate sobre redução da jornada e revisão das escalas é legítimo e necessário. Quem acompanha diariamente a realidade dos trabalhadores sabe o impacto que jornadas extensas podem produzir sobre a convivência familiar, o descanso e a saúde.
Mas não podemos trocar uma simplificação por outra.
O futuro do trabalho não cabe apenas na pergunta sobre quantas horas alguém deve permanecer no emprego.
Precisamos discutir quanto se trabalha, como se trabalha e quanto vale esse trabalho.
Isso significa reconhecer também a realidade das empresas. Há diferenças profundas entre comércio, serviços, indústria e outras atividades. Existem grandes companhias e pequenos negócios, setores altamente automatizados e outros intensivos em mão de obra. Mudanças na legislação precisam considerar essas diferenças e seus efeitos sobre emprego, produtividade e custos.
Reconhecer isso não enfraquece a defesa dos trabalhadores. Torna essa defesa responsável.
Da mesma forma, não é aceitável usar produtividade e competitividade como palavras capazes de encerrar qualquer discussão sobre remuneração e qualidade de vida.
Empresas precisam ser fortes para investir, crescer e preservar empregos. Mas uma economia também precisa de trabalhadores com renda, capacidade de consumo e segurança para planejar a própria vida.
Uma coisa depende da outra.
É justamente por isso que defendo há tantos anos a negociação coletiva.
Quem negocia uma convenção coletiva conhece algo que muitas vezes desaparece dos grandes debates nacionais: não existe uma única realidade do trabalho brasileiro.
Na mesa de negociação é possível discutir salário, jornada, benefícios, banco de horas, descanso, qualificação, produtividade e saúde do trabalhador, levando em consideração as características concretas de cada categoria.
Não se trata de escolher entre proteger o trabalhador ou preservar a empresa. A boa negociação procura fazer as duas coisas.
Tenho acompanhado negociações trabalhistas há décadas e aprendi que os acordos mais duradouros não são aqueles em que um lado impõe tudo ao outro. São aqueles em que existe equilíbrio, transparência e disposição para consideração de limites e responsabilidades.
Esse é um caminho que precisa ser valorizado também quando discutimos as transformações no mundo do trabalho.
Durante muito tempo perguntamos quantas vagas foram abertas, quantas carteiras foram assinadas ou qual era a taxa de desemprego. Continuaremos precisando desses indicadores. Mas o Brasil precisa acrescentar outra pergunta a essa agenda: que vida o emprego que estamos oferecendo permite ao trabalhador construir?
Não podemos considerar a totalidade do mercado de trabalho apenas porque mais pessoas conseguiram uma ocupação. O desafio é continuar gerando empregos e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade daqueles que já existem.
Isso passa pelos salários.
Passa pela jornada
Passa pela saúde mental.
E passa, necessariamente, pelo fortalecimento da negociação coletiva.
O trabalhador brasileiro não quer escolher entre emprego e qualidade de vida. Quer trabalhar, produzir, crescer profissionalmente e voltar para casa sabendo que seu esforço é suficiente para proporcionar segurança e dignidade à sua família.
Não considero isso uma exigência excessiva.
É o mínimo que deveríamos esperar de uma sociedade que afirme a importância do valor do trabalho.
Lourival Figueiredo Melo
Secretário-geral da CNTC (Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio) e diretor-presidente da Feaac (Federação dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio de São Paulo).