JORNADA HUMANA | Eduardo Amorim, Presidente em exercício da CNTC, rebate críticas ao fim da escala 6x1 e defende mais qualidade de vida

Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente em exercício da CNTC, Eduardo Amorim, da Federação dos Trabalhadores no Comércio nos Estados de Goiás e Tocantins (FETRACOM GO/TO) e do Sindicato dos Empregados no Comércio de Goiânia (SECEG) afirmou que o debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho representa uma necessidade urgente diante do esgotamento físico e emocional dos trabalhadores brasileiros.

Amorim destacou que discursos contrários à mudança repetem argumentos usados no passado contra direitos como férias e 13º salário. Segundo ele, jornadas exaustivas impactam diretamente a saúde mental, a convivência familiar e a produtividade dos trabalhadores.

O dirigente também reforçou a importância da atuação sindical para equilibrar a relação entre patrões e empregados e defendeu uma transição responsável para jornadas mais humanas e modernas.

Confira:

- Eduardo, representantes do setor empresarial afirmam que o fim da escala 6x1 pode gerar aumento de custos, demissões e inflação. Como o senhor responde a esses argumentos?

Toda vez que se discute melhorar a vida do trabalhador, surge o discurso do medo. Foi assim com férias, com 13º salário, com licença-maternidade e com vários outros direitos. O que nós precisamos entender é que o trabalhador não é máquina. O comerciário vive uma rotina extremamente pesada, principalmente quem está na linha de frente das lojas, em pé durante horas, sob pressão de metas abusivas, cobrança psicológica e, muitas vezes, até desvio de função.

O setor empresarial precisa compreender que o mundo mudou, principalmente depois da pandemia. As pessoas passaram a valorizar mais saúde mental, convivência familiar e qualidade de vida. Não dá mais para tratar trabalhador apenas como ferramenta de produção.

E digo mais: trabalhador exausto produz menos, adoece mais e gera mais rotatividade. Isso também custa caro para as empresas e Governo com internações. Então discutir jornada mais humana não é atraso econômico. É modernização das relações de trabalho.

- Trabalhadores defendem que a escala 6x1 compromete saúde mental, convivência familiar e qualidade de vida. Quais relatos mais marcaram a entidade que o senhor representa?

Recebemos relatos muito pesados.  Temos no SECEG um corpo médico de Psiquiatras e Psicólogos com alta demanda de consultas e pacientes relatando sobrecarga emocional. Gente que praticamente não vê os filhos acordados. Trabalhadores que saem cedo e chegam tarde todos os dias. Comerciários que não conseguem acompanhar uma consulta médica dos pais, participarem de um aniversário ou simplesmente descansar.

Muitos trabalhadores relatam crises de ansiedade, esgotamento emocional e um sentimento constante de inutilidade fora do ambiente de trabalho — questões que, inclusive, passaram a ser reconhecidas pela própria NR-1, que entrou em vigor ontem, ao incluir oficialmente os riscos psicossociais no ambiente laboral.

E existe um ponto que pouca gente debate: o trabalhador do comércio se transformou em um profissional multitarefa forçado. Hoje, além de vender, ele precisa bater metas agressivas, organizar loja, repor estoque, atender aplicativos, produzir conteúdo, gravar vídeos para redes sociais da empresa e ainda manter uma postura impecável diante do cliente o tempo inteiro. A sociedade muitas vezes não enxerga esse trabalhador. Mas nós enxergamos. São pessoas altamente demandadas, pressionadas e emocionalmente desgastadas.

- Os empresários defendem que mudanças na jornada sejam negociadas caso a caso. Na sua avaliação, a negociação individual entre patrão e empregado garante equilíbrio real de forças?

Na prática, não garante. Precisamos falar a verdade. Existe uma relação desigual entre patrão e empregado. Quem depende do salário para sobreviver muitas vezes aceita condições por medo de perder o emprego.

Quando se fala em “negociação individual”, parece bonito no discurso, mas a realidade do trabalhador brasileiro é outra. Principalmente no comércio, onde existe alta rotatividade e uma pressão enorme por resultado.

Por isso a negociação coletiva e acordos coletivos (que acontecem entre SECEG e empresas em particular) é fundamental. O sindicato existe justamente para equilibrar essa relação. O trabalhador sozinho dificilmente consegue dizer “não” quando há metas abusivas ou jornadas excessivas.

- Alguns líderes empresariais afirmam que o debate está sendo “politizado” por ocorrer em período eleitoral. O senhor acredita que isso enfraquece a discussão ou amplia a pressão social por mudanças?

Eu acho que o debate não nasce da política partidária. Ele nasce do cansaço real das pessoas. O trabalhador está esgotado. A pandemia acelerou essa reflexão coletiva sobre qualidade de vida e saúde mental.

Então, se o tema ganhou força social e política, é porque existe uma demanda legítima da população trabalhadora. Não dá para ignorar isso. O comerciário de hoje, principalmente a Geração Z, já entende que dificilmente vai enriquecer com o salário que recebe. E ele também não aceita mais a ideia de viver exclusivamente para o trabalho.

As novas gerações querem equilíbrio. Querem trabalhar, mas também querem viver. E isso não é radicalismo. É humanidade.

- Na prática, qual seria a proposta ideal defendida pela entidade: fim imediato da escala 6x1, transição gradual ou modelos alternativos?

Nós defendemos que essa mudança aconteça com responsabilidade, mas que aconteça. Não dá mais para empurrar esse debate. O ideal é construir uma transição organizada, respeitando setores diferentes da economia, mas tendo como objetivo uma jornada mais equilibrada e humana.

Defendemos modelos que ampliem o descanso do trabalhador, preservem empregos e também considerem a saúde física e mental da categoria. O que não pode continuar é normalizar jornadas extremamente desgastantes como se isso fosse algo natural.

O trabalhador precisa deixar de apenas sobreviver para voltar a viver.