São Paulo cresce para cima enquanto empurra moradores para fora

A cidade de São Paulo vive uma transformação urbana acelerada. Em nome do desenvolvimento, bairros inteiros estão sendo redesenhados para atender à expansão imobiliária, enquanto moradores antigos, pequenos comerciantes e famílias tradicionais convivem diariamente com pressão econômica, insegurança e perda gradual da identidade local.

O problema não é construir. São Paulo precisa crescer, criar moradia, atrair investimentos e acompanhar sua importância econômica. O problema é crescer sem equilíbrio urbano, sem planejamento humano e sem preservar aqueles que construíram a história da cidade muito antes da chegada dos grandes empreendimentos.

Em diversas regiões da capital, moradores relatam assédio constante de intermediários imobiliários interessados em adquirir imóveis só pelo valor do terreno. Muitas famílias passam a viver sob permanente sensação de expulsão silenciosa: vendem suas casas ou convivem com o receio de permanecer isoladas entre grandes prédios.

Pequenos comerciantes enfrentam situação semelhante. Padarias, oficinas, mercados de bairro e negócios familiares desaparecem aos poucos, substituídos por uma cidade cada vez mais padronizada, impessoal e inacessível para quem vive do próprio trabalho.

O discurso oficial fala em habitação social, mas a realidade frequentemente expõe uma contradição evidente. Empreendimentos classificados como HIS (Habitação de Interesse Social) e HMP (Habitação de Mercado Popular) chegam ao mercado com valores incompatíveis com as condições da população de baixa renda. Apartamentos vendidos como “sociais” ultrapassam facilmente centenas de milhares de reais.

A pergunta inevitável é simples: social para quem?

Enquanto o mercado imobiliário vive um boom bilionário, a população convive com outra realidade nas ruas: o medo.

Mesmo com indicadores oficiais apontando redução em alguns crimes, a sensação de insegurança continua dominando o cotidiano da capital paulista.

Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que os roubos no Estado de São Paulo registraram queda no 1º bimestre de 2026. Os roubos de veículos também apresentaram redução significativa no período. Ainda assim, os números absolutos seguem extremamente elevados em uma única cidade.

No caso dos celulares, por exemplo, a capital paulista registrou cerca de 59.000 roubos só em 2025 –média próxima de 17 ocorrências por hora. Mesmo diante de melhora estatística, a violência continua presente na rotina da população.

O cidadão ainda vive olhando para trás ao sair na rua, escondendo o celular no transporte público e convivendo diariamente com o medo de assaltos praticados por criminosos em motocicletas.

Talvez o retrato mais simbólico desse cenário seja a normalização do medo. Em diferentes regiões da cidade, moradores passaram a instalar faixas improvisadas alertando sobre áreas de assalto. Quando a própria população precisa substituir o Estado na tarefa de alertar sobre riscos de violência, fica evidente que a sensação de proteção desapareceu.

Não basta espalhar câmeras pela cidade ou divulgar estatísticas frias. Segurança pública exige presença efetiva do Estado, inteligência policial, planejamento urbano e recuperação dos espaços públicos.

São Paulo corre o risco de se transformar em uma cidade onde o cidadão comum perde espaço entre a especulação imobiliária e o avanço da insegurança.

Uma cidade não pode existir só para grandes empreendimentos e interesses econômicos. Ela precisa existir para as pessoas que acordam cedo, trabalham, empreendem, criam seus filhos e construíram a identidade desses bairros muito antes da atual corrida imobiliária.

Construir prédios é fácil. Difícil é construir uma cidade que continue humana.

Lourival Figueiredo Melo 
Secretário-geral da CNTC (Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio) e diretor-presidente da Feaac (Federação dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio de São Paulo).