O Brasil resiste, apesar da crise

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20/06/2012

Acompanhamos, com preocupação, o desenrolar de uma crise internacional que a cada dia prenuncia tempos mais difíceis no campo econômico-financeiro, com seus inevitáveis reflexos sobre os trabalhadores. Os países desenvolvidos , e seu modelo capitalista concentrador de recursos e de normas que julgavam suficientes para manter seu padrão de vida e de crescimento, enveredaram por um campo minado desde a eclosão da crise asiática de 1997, que abalou mercados e reduziu o grau de confiança nesse modelo imposto no pós-Guerra. Os países em desenvolvimento foram os primeiros a sentir os efeitos maléficos da redução de capitais e de mercados.

Em tempos de mercados globais, o que se apresentava ao mundo, em princípio, como uma crise regional, iniciada na Tailândia com o colapso financeiro da moeda local, o Thai baht, arrastou em seguida todo o Sudeste Asiático, o Japão, desvalorizou mercados, pulverizou reservas e entrou para a história como a primeira grande crise dos mercados globalizados. A crise financeira asiática expôs, também, a fragilidade do sistema neoliberal e dos mercados sem regulamentação, produziu mais miséria nos países periféricos e mais desemprego onde mais se necessitava deles. A crise desestabilizou nossa economia, expôs nossa fragilidade econômica, levou a Argentina à lona e produziu abalos fortes no Mercosul.
Quando se acreditava que os efeitos da crise asiática levariam à construção de um novo modelo econômico internacional, os mercados voltaram suas garras para os países em desenvolvimento, exigindo de nós mais sacrifícios, mais privatizações e o aprofundamento do mesmo receituário que levou o mercado mundial à sua primeira crise sistêmica.
O novo abalo, desta vez provocado pela chamada crise do subprime nos Estados Unidos e na Inglaterra, em 2008, é filho da primeira e irmão da atual insolvência em cascata que arrasta importantes economias europeias e põe em alerta o sistema financeiro internacional. Nessas três crises, Companheiro Guiomar Vidor, ficam subjacentes as motivações e exposto o receituário que vai alimentar o ciclo de instabilidade de nossas economias: os países desenvolvidos se alimentaram dos recursos retirados dos países em desenvolvimento com a hegemonia da ideologia neoliberal vigente nas décadas de 80 e 90, gastaram sem critérios, engordaram os lucros das grandes corporações, amealharam lucros exorbitantes no setor bancário e, ao final dessas três grandes crises, socializaram o prejuízo com a desculpa singela de que se tratavam de crises sistêmicas.

Na debâcle da Ásia, perderam-se empregos em todo o mundo, investimentos e ativos. Na crise de 2008, gerada pelo capital especulativo e pela ciranda de lucros fáceis do mercado imobiliário, foram gastos 1 trilhão de dólares dos contribuintes norte-americanos para recompor os prejuízos dos bancos e das grandes corporações. A conta, ao final, foi paga duplamente por aqueles que, ao final, eram as verdadeiras vítimas da especulação: os próprios contribuintes e trabalhadores, que perderam suas casas e ainda viram seus impostos serem canalizados para recompor o capital de especulação.

O filme se repete agora na Europa, com o mesmo receituário cruel: redução de investimentos públicos, cortes nos salários e nas aposentadorias, supressão de direitos trabalhistas, desemprego e arrocho fiscal. E, de novo, o mesmo discurso de crise sistêmica e de socialização do prejuízo, com a tentativa de ressuscitar o moribundo FMI.

Uma coisa está bastante clara, Senhores: nós, brasileiros, não podemos mais continuar a pagar a conta do descontrole dos países ricos. Essa é a posição do movimento sindical, dos empresários e do Governo Federal, expressa pela presidente Dilma Rousseff na última semana, na França, durante sua participação na reunião do G-20. É preciso responsabilizar os países desenvolvidos pela desaceleração econômica nos países emergentes e cobrar dos líderes europeus uma solução que não prejudique as economias em desenvolvimento.

Não só os países desenvolvidos estão sofrendo pressões nas suas taxas de crescimento, mas também os países emergentes – foi esse o recado da Presidente Dilma na reunião. É bom lembrar, caro Guiomar, que o Brasil fechou 2011 com um crescimento de 2,7% do PIB, contra 7,5% em 2010, num claro sinal de que essas sucessivas crises que vêm dos países ricos já comprometem nossas contas e nosso crescimento.

Barreiras protecionistas adotadas pelas grandes potências econômicas prejudicam nossas exportações. Políticas irreais de câmbio e artifícios de proteção encarecem nossos produtos no mercado externo e reduzem nossa capacidade de produção. É bom lembrar, também, que essa mesma política cambial, adotada pela China , enfraquece nossa posição no cenário internacional e inunda nosso mercado interno de produtos que tiram o emprego dos brasileiros.

O Brasil tem feito sua parte e cumprido com suas obrigações. Tem crescido de forma sustentável, mantido seu equilíbrio fiscal, tem uma estrutura fiscal sólida e alcançou, com as políticas públicas colocadas em marcha pelo Governo do Presidente Lula, mantidas pela Presidente Dilma, uma âncora social que já nos permitiu superar, sem traumas, a tormenta financeira de 2008. Já somos a sexta economia mundial e ainda temos pressa para crescer e dívidas sociais históricas para saldar.

É hora, portanto, de dizer um basta, porque não pode recair sobre os trabalhadores brasileiros a ortodoxia do controle monetário para superar uma crise que não é nossa.

Sofremos ainda, internamente, as nossas próprias contradições. Estamos a caminho da regulamentação da nossa profissão de Comerciários. Não faz nenhum sentido que somente agora, mais de 500 anos após nossa colonização, estejamos próximos do reconhecimento de nossos direitos mínimos de atuação. Tivemos que negociar muito, quase todo o tempo sob pressão da classe patronal, para chegar nessa etapa do processo de regulamentação, que senão é a ideal, pelo menos é a possível.

Superada essa etapa, vamos continuar aprofundando nossas discussões para buscar novos avanços. Nossa luta é passo a passo. A CNTC não vai abrir mão de seu papel de protagonista na defesa dos direitos dos Comerciários brasileiros, assim como da defesa dos direitos do movimento sindical consagrados pela Constituição de 1988, que são os da unicidade, da contribuição e da autonomia sindicais.

Estamos em plena temporada de negociações coletivas no setor de Comércio e Serviços. No ano passado, segundo levantamento do Dieese, fomos a categoria com maior ganho real entre todas as negociações com a classe patronal. Péssima hora para a divulgação desses dados, dando aos patrões a falsa noção de que fomos remunerados acima do mercado, quando, na realidade, conseguimos apenas recompor o salário que a inflação nos leva ao fim de cada ano de reajuste. Com pouco mais de 2% de ganho e projeção de inflação de 4,5%, em pouco mais de cinco meses nosso salário já terá sido corroído pela meta inflacionária, sem nenhum aumento real. Não conseguimos obter, na média nacional, nenhum ganho de produtividade.

Nossas condições de trabalho ainda são preocupantes no tocante às doenças profissionais, ao banco de horas – que rouba da companheira e do companheiro Comerciário a convivência com a família -, e ao excesso da jornada de trabalho. Em alguns setores, o desrespeito às condições de trabalho ainda beiram ao ultraje. Há algumas semanas, em entrevista a um jornal de circulação nacional que queria repercutir os ganhos dos Comerciários na última negociação coletiva, aqueles mesmos 2% a que me referi, eu tracei um quadro das dificuldades da categoria e contei um relato que ouvi pessoalmente de uma caixa de uma rede nacional de supermercados em Belo Horizonte, obrigada a usar um fraldão porque não tinha permissão do gerente para ir ao banheiro. Para manter o emprego, ela sequer admitia a hipótese de denunciar o empregador à fiscalização do Ministério do Trabalho. Percebi o espanto e o choque da repórter com essa prática – diria, medieval – das nossas condições de trabalho. Mesmo nós, com a experiência de anos na luta sindical, ainda nos surpreendemos com essa dura realidade do trabalhador.

O Rio Grande do Sul é um dos berços do trabalhismo brasileiro. Aqui se forjou o maior de todos os defensores do trabalhador no nosso país, o Presidente Getúlio Vargas. Com ele obtivemos nossas maiores conquistas. Com ele, demos um salto à frente na conquista de nossos direitos como trabalhadores.

Mas ainda há muito o que superar.

Ainda teremos um longo caminho pela frente.

Somente unidos vamos construir um Brasil mais justo.



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